
A Criança e a Serpente: A Inocência Recuperada em Nietzsche
(Explicação da metáfora em “Assim Falou Zaratustra”)
A cena da criança nua brincando com uma serpente dourada é uma das imagens mais radicais e esperançosas de Nietzsche. Ela sintetiza o ápice da evolução espiritual proposta em Zaratustra: a inocência como conquista filosófica, não como ignorância. A criança aqui não é ingênua — é livre. Sua nudez não expõe fragilidade, mas pureza ontológica: despida de máscaras morais, dogmas ou culpas, ela personifica o “Sim Sagrado” à existência.
Por Que a Criança?
- Terceira Metamorfose:
Após o camelo (obediência) e o leão (destruição), a criança é o estágio final: “criação inocente e esquecimento”. Ela não carrega o peso do passado nem a fúria da negação. Seu brincar é ato puro de invenção. - Inocência como Poder:
Nietzsche resgata o termo “inocência” (Unschuld) do cristianismo para subvertê-lo: não é ausência de pecado, mas ausência de necessidade de perdão. A criança não pede licença para existir.
A Serpente Dourada: Sabedoria Terrena
- Subversão do Símbolo Bíblico:
Diferente da serpente do Éden (que corrompe com conhecimento proibido), esta é dourada — símbolo solar, vital. Não seduz para o mal, mas para a sabedoria encarnada. Enrolar-se no braço da criança mostra cumplicidade entre instinto e consciência. - Sabedoria sem Culpa:
A serpente nietzschiana não oferece frutos do “bem e mal”. Seu sussurro é: “Conhece-te como corpo”. Ela é a voz dos instintos não reprimidos, que a criança ouve sem medo.
Flores que Desabrocham Instantaneamente
- Efeito da Presença Autêntica:
As flores são manifestações do Amor Fati — o “amor ao destino”. Brotam onde a criança pisa porque ela não luta contra a vida, mas dança com ela. - Tempo Transfigurado:
O “instantâneo” do desabrochar simboliza o eterno retorno vivido como êxtase. Para a criança, cada instante é tão pleno que vale a pena repeti-lo infinitamente.
Filosofia em Ação: O Brincar como Revolução
A criança não “interpreta” um papel: ela joga. Seu brincar é:
- Antidoto ao niilismo: Enquanto o último homem busca conforto, ela cria riscos (brincar com a serpente = abraçar o perigo da liberdade).
- Crítica ao racionalismo estéril: A sabedoria não está nos livros, mas no corpo em movimento.
- Profecia do Übermensch: A criança é o além-homem em gestação — não um super-herói, mas quem diz “sim” até à dor, transformando-a em jogo.
“A criança é esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira por si, um movimento primeiro, um santo dizer-sim.”
— Nietzsche, “Das Três Metamorfoses”
Por Que Essa Imagem Perturba?
Ela desmonta nossas certezas:
- A sabedoria não é austera (como em Sócrates ou Buda), mas lúdica;
- O perigo (serpente) não é para evitar, mas para incorporar;
- A inocência não é pré-moral, mas pós-ética — além do bem e do mal.
Atualidade Urgente
Numa sociedade que:
- Medicaliza a infância,
- Demoniza os instintos,
- Enjaula o brincar em telas,
Esta imagem é um manifesto. Lembra: só recuperaremos a humanidade quando ousarmos ser crianças outra vez — nuas, sábias e deslumbradas com a serpente dourada que somos.
A criança nietzschiana não é futuro: é presente eterno. Sua lição? Quebrar a serpente em “inocente” e “sábia” é falsa dicotomia. A verdadeira sabedoria é brincar com o perigo de ser livre — e nesse jogo, até as pedras florescem.