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A Criança e a Serpente: A Inocência Recuperada em Nietzsche

julho 10, 2025

A Criança e a Serpente: A Inocência Recuperada em Nietzsche

(Explicação da metáfora em “Assim Falou Zaratustra”)

A cena da criança nua brincando com uma serpente dourada é uma das imagens mais radicais e esperançosas de Nietzsche. Ela sintetiza o ápice da evolução espiritual proposta em Zaratustra: a inocência como conquista filosófica, não como ignorância. A criança aqui não é ingênua — é livre. Sua nudez não expõe fragilidade, mas pureza ontológica: despida de máscaras morais, dogmas ou culpas, ela personifica o “Sim Sagrado” à existência.

Por Que a Criança?

  • Terceira Metamorfose:
    Após o camelo (obediência) e o leão (destruição), a criança é o estágio final: “criação inocente e esquecimento”. Ela não carrega o peso do passado nem a fúria da negação. Seu brincar é ato puro de invenção.
  • Inocência como Poder:
    Nietzsche resgata o termo “inocência” (Unschuld) do cristianismo para subvertê-lo: não é ausência de pecado, mas ausência de necessidade de perdão. A criança não pede licença para existir.

A Serpente Dourada: Sabedoria Terrena

  • Subversão do Símbolo Bíblico:
    Diferente da serpente do Éden (que corrompe com conhecimento proibido), esta é dourada — símbolo solar, vital. Não seduz para o mal, mas para a sabedoria encarnada. Enrolar-se no braço da criança mostra cumplicidade entre instinto e consciência.
  • Sabedoria sem Culpa:
    A serpente nietzschiana não oferece frutos do “bem e mal”. Seu sussurro é: “Conhece-te como corpo”. Ela é a voz dos instintos não reprimidos, que a criança ouve sem medo.

Flores que Desabrocham Instantaneamente

  • Efeito da Presença Autêntica:
    As flores são manifestações do Amor Fati — o “amor ao destino”. Brotam onde a criança pisa porque ela não luta contra a vida, mas dança com ela.
  • Tempo Transfigurado:
    O “instantâneo” do desabrochar simboliza o eterno retorno vivido como êxtase. Para a criança, cada instante é tão pleno que vale a pena repeti-lo infinitamente.

Filosofia em Ação: O Brincar como Revolução

A criança não “interpreta” um papel: ela joga. Seu brincar é:

  • Antidoto ao niilismo: Enquanto o último homem busca conforto, ela cria riscos (brincar com a serpente = abraçar o perigo da liberdade).
  • Crítica ao racionalismo estéril: A sabedoria não está nos livros, mas no corpo em movimento.
  • Profecia do Übermensch: A criança é o além-homem em gestação — não um super-herói, mas quem diz “sim” até à dor, transformando-a em jogo.

“A criança é esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira por si, um movimento primeiro, um santo dizer-sim.”
— Nietzsche, “Das Três Metamorfoses”

Por Que Essa Imagem Perturba?

Ela desmonta nossas certezas:

  1. A sabedoria não é austera (como em Sócrates ou Buda), mas lúdica;
  2. O perigo (serpente) não é para evitar, mas para incorporar;
  3. A inocência não é pré-moral, mas pós-ética — além do bem e do mal.

Atualidade Urgente

Numa sociedade que:

  • Medicaliza a infância,
  • Demoniza os instintos,
  • Enjaula o brincar em telas,
    Esta imagem é um manifesto. Lembra: só recuperaremos a humanidade quando ousarmos ser crianças outra vez — nuas, sábias e deslumbradas com a serpente dourada que somos.

A criança nietzschiana não é futuro: é presente eterno. Sua lição? Quebrar a serpente em “inocente” e “sábia” é falsa dicotomia. A verdadeira sabedoria é brincar com o perigo de ser livre — e nesse jogo, até as pedras florescem.