
O Último Homem e Suas Sombras: A Tragédia do Conformismo em Nietzsche
(Explicação da metáfora em “Assim Falou Zaratustra”)
A cena de homens idênticos, pálidos e curvados, em uma cidade cinza, carregando lanternas que projetam sombras monstruosas nas paredes, é a representação mais contundente do “último homem” em Nietzsche — o anti-herói da modernidade, que escolheu a segurança da mediocridade em vez do risco da grandeza.
Anatomia da Metáfora:
Elemento | Significado Nietzscheano |
---|---|
Homens idênticos/pálidos | Massificação humana: perda de singularidade, vida reduzida a repetição. |
Cidade cinza | Sociedade niilista: sem cor, arte ou paixão — só funcionalidade vazia. |
Costas curvadas | Submissão existencial: incapacidade de erguer-se para olhar o abismo ou o céu. |
Lanternas nas mãos | Ilusão de “progresso”: técnica como falso farol (ciência, tecnologia, burocracia). |
Sombras monstruosas | Verdade interior projetada: o vazio, o medo e a pequenez que recusam encarar. |
Quem É o “Último Homem”?
É o oposto radical do Übermensch (além-do-homem):
- Conformismo como ideal: “Nós inventamos a felicidade”, dizem, enquanto trocam grandeza por conforto.
- Medo da solidão: Preferem o rebanho a correr o risco de caminhar sozinhos.
- Culto à igualdade: “Todos são iguais, quem sente diferente vai voluntariamente ao manicômio!”
- Morte da curiosidade: “O que é amor? O que é criação? O que é anseio?” — piscam, sem entender.
“O último homem vive mais tempo, tudo é pequeno, e todos saltam de um galho para outro.”
— Nietzsche, “Prólogo de Zaratustra”
Por Que as Sombras São Monstruosas?
As sombras gigantes nas paredes revelam:
- A mentira da pequenez:
Os homens são diminutos, mas suas sombras são titânicas — símbolo da inflação do ego que tenta compensar a nulidade existencial. - O teatro da autoenganação:
As lanternas (razão, tecnologia) são usadas para projetar ilusões de grandiosidade, enquanto a realidade é cinza e pálida. - O monstro que evitam encarar:
Se olhassem diretamente para as sombras, veriam não um demônio, mas seu próprio vazio ampliado — e isso seria insuportável.
Zaratustra Diante do Último Homem: Nojo e Piedade
Quando Zaratustra descreve o último homem, sua reação é dupla:
- Nojo físico: “O tempo chegou em que o homem já não lança a flecha de seu anseio por cima do homem!”
- Piedade profunda: Ele vê neles potenciais Übermenschen abortados — crianças que escolheram ser velhos antes de nascer.
Atualidade da Metáfora: Nossa Cidade Cinza
A imagem é assustadoramente contemporânea:
- Homens idênticos:
- Gerações moldadas por algoritmos (redes sociais, trabalho burocrático).
- Lanternas tecnológicas:
- Celulares que projetam sombras de felicidade (Instagram), enquanto a vida real empalidece.
- Sombras monstruosas:
- Narcisismo coletivo (“personal brands”, culto a influencers) como grito de desespero existencial.
“Nunca tantos tiveram tantas lanternas — e tão pouca luz interior.”
Como Fugir Desta Cidade?
Zaratustra aponta caminhos:
- Quebre a lanterna:
Abandone as ferramentas que só projetam ilusões (certezas científicas, ideologias prontas). - Olhe as sombras nos olhos:
Encare o monstro que você projetou e descubra: ele é seu medo de viver. - Cuspa o “felicidade” do último homem:
Busque o que dá frio na espinha: criar, amar perigosamente, escalar montanhas interiores.
A Última Sombra: Quando o Monstro É Você
A metáfora final é cruel:
- As sombras não são externas — nascem das lanternas que os próprios homens carregam.
- O verdadeiro monstro é sua recusa de grandeza.
- Zaratustra não os salvará: só chora, e segue rumo às montanhas, onde o ar ainda queima os pulmões.
Alerta Final:
“Cuidado com o dia em que sua sombra monstruosa se voltar contra você e sussurrar: ‘Por que me criaste, se podias ser sol?’ Nessa hora, só restam duas escolhas: apagar a lanterna e mergulhar na noite — ou acendê-la pela última vez para incendiar a cidade cinza.”