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Ópera de Bizé

junho 16, 2025

A ópera mais célebre do compositor francês Georges Bizet é Carmen, uma das obras mais populares e encenadas em todo o mundo.

A RELAÇÃO DE NIETZSCHE COM A ÓPERA

A ópera mais célebre do compositor francês Georges Bizet é Carmen, uma das obras mais populares e encenadas em todo o mundo. A sua importância reside tanto na sua música cativante quanto na sua história transgressora para a época.

Aqui está uma explicação detalhada sobre a obra:

Contexto e Estreia

  • Compositor: Georges Bizet.
  • Estreia: 3 de março de 1875, na Opéra-Comique em Paris.
  • Recepção Inicial: A estreia de Carmen foi um escândalo. O público da Opéra-Comique esperava comédias leves e histórias moralmente edificantes. Em vez disso, Bizet apresentou uma trama sobre paixão avassaladora, contrabando, obsessão e assassinato, protagonizada por uma mulher livre e sedutora da classe trabalhadora. A crítica foi severa e o público ficou chocado.
  • Morte de Bizet: Georges Bizet morreu apenas três meses após a estreia, aos 36 anos, convencido de que sua obra-prima havia sido um fracasso.

Enredo da Ópera

A história se passa em Sevilha, na Espanha, por volta de 1820.

  • Ato I: Na praça da cidade, a cigana Carmen, uma operária da fábrica de tabaco, seduz o ingênuo soldado Don José com a famosa ária “Habanera” (L’amour est un oiseau rebelle). Após uma briga na fábrica, Carmen é presa, mas convence Don José a deixá-la escapar, prometendo encontrá-lo mais tarde.
  • Ato II: Don José, que foi preso por sua cumplicidade, encontra Carmen na taverna de Lillas Pastia. Lá, ele se depara com o famoso toureiro Escamillo, que canta a “Canção do Toureador” e também se encanta por Carmen. Dividido entre o dever e a paixão, Don José acaba por abandonar o exército para se juntar a Carmen e seu bando de contrabandistas.
  • Ato III: Nas montanhas, o relacionamento de Carmen e Don José se deteriora. Ele é possessivo e ciumento, enquanto ela, uma alma livre, começa a se cansar dele. Em uma cena de cartomancia, Carmen prevê a sua própria morte. Micaëla, uma jovem da aldeia de Don José, aparece para lhe dizer que sua mãe está morrendo, e ele parte com ela, não sem antes ameaçar Carmen.
  • Ato IV: Do lado de fora da arena de touros em Sevilha, Escamillo é aclamado pela multidão. Don José encontra Carmen e implora desesperadamente que ela volte para ele. Carmen recusa firmemente, afirmando que nasceu livre e livre morrerá. Consumido pelo ciúme e pela raiva, Don José a apunhala até a morte, enquanto a multidão dentro da arena saúda a vitória de Escamillo. A ópera termina com Don José confessando o crime sobre o corpo de sua amada.

Personagens Principais

  • Carmen (mezzo-soprano): A protagonista. Uma cigana sensual, independente e que valoriza sua liberdade acima de tudo.
  • Don José (tenor): Um soldado de bom caráter que se destrói por sua paixão obsessiva por Carmen.
  • Escamillo (barítono): Um toureiro carismático e popular, que se torna o principal rival de Don José pelo amor de Carmen.
  • Micaëla (soprano): Uma jovem camponesa, símbolo da pureza, do dever e do amor inocente que Don José abandona.

Importância e Legado

Carmen é considerada uma obra revolucionária por ter quebrado as convenções da ópera francesa. Sua representação realista de personagens da classe trabalhadora, a intensidade de suas paixões e seu final trágico e brutal a tornam uma precursora do estilo Verismo na ópera italiana. A personagem de Carmen, em particular, é um dos arquétipos mais poderosos da cultura ocidental: a femme fatale que vive e morre por suas próprias regras.

A RELAÇÃO DE NIETZSCHE COM A ÓPERA

Com base em um conhecimento geral da filosofia de Nietzsche, é possível explicar sua complexa e evolutiva relação com a ópera. A admiração de Nietzsche pela ópera não foi constante; ela se transformou de uma esperança de renovação cultural para uma profunda crítica, e, finalmente, encontrou um novo ideal em uma obra inesperada.

A relação de Nietzsche com a ópera pode ser dividida em três fases principais:

1. A Admiração por Richard Wagner e a Esperança de Renascimento

Em sua primeira grande obra, “O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música” (1872), Nietzsche argumentou que a tragédia grega antiga representava a forma de arte mais elevada, pois unia duas forças fundamentais da existência humana:

  • O Apolíneo: O princípio da ordem, da forma, da razão e da beleza.
  • O Dionisíaco: O princípio do caos, da embriaguez, da paixão e da unidade primordial com a vida em seu sofrimento e alegria.

Nietzsche via a cultura de sua época, dominada pelo racionalismo socrático, como decadente e sem vida. Ele acreditava que a ópera de seu amigo e ídolo, Richard Wagner, era a chave para o renascimento da cultura alemã. Para o jovem filósofo, as óperas de Wagner (como Tristão e Isolda) eram a reencarnação moderna da tragédia grega, uma “obra de arte total” (Gesamtkunstwerk) que fundia música, mito e drama para despertar o espírito dionisíaco.

2. A Ruptura com Wagner e a Crítica à Decadência

Com o tempo, a admiração de Nietzsche por Wagner se transformou em uma de suas mais famosas decepções. Ele passou a ver o compositor não como um salvador, mas como um sintoma da mesma decadência que pretendia combater. As razões para essa ruptura foram:

  • Adesão ao Cristianismo: A ópera final de Wagner, Parsifal, com seus temas de redenção, piedade e castidade, foi vista por Nietzsche como uma rendição aos valores cristãos, que ele considerava uma negação da vida.
  • Teatralidade e Manipulação: Nietzsche passou a criticar a música de Wagner como sendo excessivamente bombástica, teatral e manipuladora, uma arte que buscava “adoecer” e subjugar o público em vez de fortalecê-lo.
  • Nacionalismo e Antissemitismo: O crescente nacionalismo alemão e o antissemitismo de Wagner eram repugnantes para Nietzsche, que defendia uma visão mais ampla, de um “bom europeu”.

Essa ruptura foi detalhada em obras como “O Caso Wagner” e “Nietzsche contra Wagner”, onde ele ataca seu antigo ídolo como o artista supremo da decadência moderna.

3. A Descoberta de Carmen como Antídoto

Após romper com Wagner, Nietzsche encontrou na ópera “Carmen”, de Georges Bizet, o antídoto perfeito para a “doença” wagneriana. Ele exaltou Carmen por razões que eram o exato oposto de sua crítica a Wagner:

  • Clareza e Precisão: Em vez da grandiosidade e do peso germânico de Wagner, Nietzsche elogiava a economia, a leveza e a clareza da música de Bizet.
  • Paixão Realista: Carmen apresentava o amor não como um ideal romântico ou redentor, mas como uma força da natureza: fatalista, perigosa e cruel. Era a paixão sem a moralidade cristã.
  • Afirmação da Vida e do Destino: A protagonista, Carmen, encarnava o ideal nietzschiano de amor fati (amor ao destino). Ela enfrenta seu destino trágico de cabeça erguida, sem arrependimento ou busca por redenção, afirmando sua liberdade até a morte.

Para Nietzsche, Carmen era uma obra “mediterrânea”, ensolarada e livre da “névoa” do idealismo nórdico de Wagner. Ele a via como uma arte que afirmava a vida em sua totalidade, incluindo seu sofrimento e crueldade, representando assim um ideal de saúde e força.