Convite: Primeiro Poema do Livro A Gaia Ciência de Nietzsche

Para compreender a relação entre Platão e Nietzsche sobre o amor e a vida, devemos começar pelo cenário onde a filosofia platônica frequentemente situa essas discussões: o simpósio e o vinho, elementos que servem de porta de entrada para uma distinção fundamental entre o amor como “falta” (Platão) e o amor como “excesso” (Nietzsche).

O Vinho e o Simpósio em Platão: Teste e Verdade

O vinho, na obra de Platão, não é apenas uma bebida inebriante, mas uma ferramenta filosófica e pedagógica. Os gregos bebiam vinho essencialmente nos banquetes, onde o ato de beber era sinônimo de “estar junto” (syneinai), uma atividade coletiva e nunca solitária. Platão, especialmente nas Leis e no Banquete, utiliza o vinho como um “fármaco” em seu duplo sentido: remédio e veneno, capaz de aquecer a alma e o corpo.

Longe de uma condenação puritana, o vinho aparece como uma prova de fogo para o caráter. Ele é descrito como um “filtro da temeridade” e um instrumento para sondar a alma (psychês básanon), permitindo conhecer a natureza de cada um quando as defesas racionais são baixadas. Se a educação (paideia) visa o equilíbrio entre prazer e dor, o vinho serve para educar o homem a governar a embriaguez, tornando-se sábio mesmo em meio à desordem.

No diálogo O Banquete, a embriaguez desempenha um papel crucial na revelação da verdade. Alcibíades, ao chegar bêbado, encarna a máxima in vino veritas (ou oinos alethes), sendo capaz de falar a verdade sobre seu amor por Sócrates e, por extensão, fazer um elogio à filosofia. Contudo, Platão estabelece hierarquias: há o simpósio dos medíocres, que precisam de flautistas e barulho, e o simpósio dos “bem-educados”, que se bastam com a conversação ordenada, mesmo bebendo muito.

Platão: O Amor como Falta e a Escada para o Ideal

É nesse cenário de consumo de vinho que surgem as definições platônicas de amor (Eros), que Nietzsche posteriormente criticará ferozmente. No Banquete, através do mito narrado por Aristófanes, o amor é apresentado como a busca por uma completude perdida. Originalmente, os seres humanos seriam esféricos e duplos, mas, punidos por sua arrogância, foram cortados ao meio por Zeus. Desde então, o amor é o desejo e a procura dessa “metade perdida”, uma tentativa de curar a natureza humana mutilada.

Embora Aristófanes seja um comediógrafo, sua fala revela uma dimensão trágica: a de que o desejo humano nasce de uma falta constitutiva, de uma insuficiência. Sócrates, instruído pela sacerdotisa Diotima, refina essa ideia, mas mantém a premissa da carência: só desejamos aquilo que não temos. Eros é filho de Póros (Recurso) e Pênia (Pobreza/Miséria), sendo um eterno “filósofo” intermediário, descalço e caçador, que busca o que é belo e bom porque não o possui.

A solução platônica para essa falta é a sublimação, conhecida como scala amoris (escada do amor). O amante deve ascender dos corpos belos para as belas almas, depois para as leis e ciências, até alcançar a contemplação do “Belo em si”, uma forma eterna e imutável. O corpo é apenas um degrau inicial a ser superado em direção ao ideal.

Nietzsche: O Amor como Excesso e a Afirmação da Vida

Nietzsche posiciona-se como o antípoda dessa tradição, diagnosticando no platonismo (e no cristianismo que o absorveu) uma doença que despreza a vida. Para Nietzsche, a concepção de amor como “falta” ou busca de uma “metade” é um sintoma de fraqueza e neurose. Ele critica a ideia de que o desejo se apazigua na unidade ou na fusão, vendo nisso uma negação da individualidade e da realidade terrena em favor de um ideal fantasmagórico.

Em contraposição à pobreza (Pênia) de Eros platônico, Nietzsche propõe o amor como exuberância e transbordamento. O amor não deve nascer da carência, mas da plenitude de quem tem “demasiado mel” e precisa se doar, tal como o sol que se doa sem pedir nada em troca.

Os pontos centrais da visão nietzschiana, em contraste com a platônica, são:

  1. Excesso vs. Falta: O amor é uma expressão de vontade de potência, um excesso que visa o transbordamento, não o preenchimento de um vazio.
  2. Fruição de Si vs. Renúncia: Para amar, o indivíduo deve primeiro conquistar a si mesmo e ter prazer em sua própria força (um egoísmo saudável), ao contrário da moral cristã/platônica que prega a abnegação ou a busca de completude no outro.
  3. Amizade Estelar vs. Fusão: Nietzsche valoriza a amizade (philia) como uma forma superior de amor, onde se respeita a distância e a diferença. É a “amizade de astros”, onde dois navios seguem rotas próprias, celebrando a existência do outro sem tentar possuí-lo ou fundir-se a ele.
  4. Amor Fati: Em vez de buscar um mundo ideal além-túmulo (o “Belo em si” de Platão), Nietzsche propõe o Amor Fati (amor ao destino), a aceitação amorosa e integral da realidade como ela é, com todas as suas dores e alegrias, numa afirmação do Eterno Retorno.

Conclusão: Da Lógica à Dança

A ruptura de Nietzsche com Platão não é apenas conceitual, mas estilística. Enquanto a filosofia tradicional (platônica) busca prender as palavras em um sistema lógico de verdade imutável, Nietzsche propõe “dançar com a pena”, utilizando aforismos e poesia para expressar um pensamento que é vida e movimento.

Para finalizar com uma analogia que sintetiza essas visões:

O amor platônico é como um alpinista faminto que escala uma montanha íngreme (a scala amoris), deixando para trás o vale (o corpo e o mundo material) porque acredita que apenas no cume encontrará o alimento divino que saciará sua fome eterna. Já o amor nietzschiano é como um rio caudaloso que, cheio das chuvas da montanha (a plenitude de si), transborda de seu leito não porque precisa de algo da terra, mas porque sua própria natureza é fluir, doar-se e fertilizar as margens, amando cada curva do caminho (amor fati) sem desejar ser um oceano estático.

 

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